Guia para uma vida feliz, segundo os idosos – Parte I


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Livros de autoajuda, revistas sobre simplicidade, filmes, filmes europeus, fóruns e reuniões, colunas online, palestras e uma quantidade imensurável de vídeos são algumas das fontes que usamos para nos ajudar na suposta difícil jornada de encontrar felicidade.

Engraçado que nessa busca esquecemos de perguntar para aqueles que mais provavelmente possuem as respostas, os idosos. Pessoas que já estão no fim da sua longa jornada e têm toneladas de dicas prontas para disponibilizar a quem pedir. Mas poucos pedem. O que será que eles teriam para nos ensinar?

O geriatra americano Karl Pillemer PhD e professor da Cornell University resolveu colocar esta excelente ideia em prática. Ele criou o Legacy Project (Projeto Legado) para reunir os mais valiosos conselhos e lições de vida do que ele considera que são as pessoas mais sábias de hoje, ele as batizou de experts. Ao longo de vários anos, ele e sua equipe entrevistaram quase  1000 vovôs e vovós perguntando sobre as lições mais valiosas  de suas vidas. O resultado é o fascinante  livro 30 Lessons for Living, uma das leituras mais ricas e gostosas que eu tive em toda a minha vida.

Enquanto lia o livro (que dificilmente será publicado em português) fui selecionando as melhores histórias para depois organizar em um artigo aqui do site. Em certo ponto, dei-me conta de que os depoimentos eram tão valiosos e profundos que seria muito melhor se eu simplesmente os publicasse na íntegra. O resultado está dividido em dois grandes artigos cheios de conselhos valiosos sobre o que realmente importa na vida, o peso do trabalho, dicas para um casamento feliz, o amor e a importância de uma vida pautada em valores sólidos.

Se você, assim como eu, já passou da fase (ignorante) da vida de não dar ouvido aos mais velhos, irá gostar do que irá ler. Se você ainda é um rebelde sem ou com causa, quem sabe não pode tirar algo de útil?

FELICIDADE REQUER OTIMISMO

June Driscoll, 89 (uma senhora debilitada que vivia em uma casa de repouso e inspirou o livro):

“Bem, é assim. Eu cresci no que você pode chamar de barraco, com chão sujo e sem banheiro dentro. Eu tive seis filhos, e meu marido vivia mudando de emprego. Eu trabalhei duro toda a minha vida até não aguentar. Enfrentei a depressão quando mal tínhamos o que comer. Agora aqui estou eu, em um lugar com um teto, três refeições por dia, e pessoas muito legais cuidando de mim. Há muito o que se fazer. Eu acordo e o sol está brilhando na janela. Eu estou viva, apesar de tudo. Eu posso escutar e enxergar ok. Jovem, você irá aprender, eu espero, que felicidade é o que você faz, onde você estiver. Como eu poderia ser infeliz? As pessoas reclamam o tempo todo, mas eu não. É minha responsabilidade ser o mais feliz que eu posso hoje.

Trecho do autor: Várias e várias vezes enquanto eles refletiam sobre suas vidas, eu ouvi versões da mesma frase “eu teria me preocupado menos, me arrependo de ter me preocupado tanto com tudo”.

FELICIDADE REQUER HABILIDADE

Jane Hilliard, 90:

“Minha mãe me ensinou a não chorar pelo leite derramado. Se você  fez besteira, limpe. Se você quebrou, conserte. E se você cometeu um erro, corrija. Ela também me ensinou a manter a minha palavra, ser confiável, não roubar o tempo dos outros ao chegar atrasado, e entregar logo algo que peguei emprestado. O mundo seria um lugar melhor se todos nós aprendêssemos a valorizar o outro, a respeitar a privacidade alheia e as diferenças e, mais importante, não julgar.

Eu tive que simplesmente aprender a viver, mas eventualmente eu percebi qual é o melhor jeito. Saber o que é suficiente, não usar mais do que a minha parte dos recursos naturais, a reconhecer a diferença entre querer e precisa, sentir prazer ao poder usar algo que estava quebrado. Aprender a apreciar os prazeres simples da vida tornou minha vida mais satisfatória e menos problemática. Felicidade não depende do quanto nós temos, mas é baseada no sucesso pessoal em habilidades e técnicas, senso de humor, aquisição de conhecimento, aperfeiçoamento do caráter, expressão de gratidão, satisfação de ajudar os outros, o prazer de estar com os amigos, o conforto da família e a alegria de amar.”

SABOREIE AS PEQUENAS COISAS

Larry Handley, ?:

“Deixa eu te dizer, nos anos 30 nós tivemos a Depressão. Se você acha que sabe o que é crise hoje, não é nada como aquela. As pessoas não tinham o suficiente pra comer. Muitos pais da vizinhança estavam sem emprego, e nós compartilhávamos coisas simples porque as pessoas não tinham dinheiro. Vivíamos a uma quadra e meia de um lindo parque, havia muitas atividades para crianças lá e uma grande pista de skate. No verão, aconteciam shows e toda a vizinhança ia.

Havia carrinhos de pipoca por todo o parque. Nós crianças ganhávamos uma moeda e ficávamos um tempão na fila decidindo o que escolher, e os pobres atrás de nós esperando pacientemente a decisão: ‘eu quero pipoca ou sorvete? Ou talvez pirulito de caramelo?’ E às vezes, aos sábados, passava matinés no cinema para as crianças. E depois do filme, ganhávamos uma outra moeda, e mais uma vez escolhíamos entre pipoca e sorvete. Cara, que sábado nós tivemos!”

Trecho do autor do livro: “cara, que sábado nós tivemos”. Eu tive dificuldade de tirar essa frase da minha cabeça. Eu vejo as crianças voltarem de uma tarde no shopping ou no cinema megaplex, alucinadas por um doce de $10 dólares a caixa, e eu não lembro nenhuma vez em que eles suspiraram alegremente “Cara! Que sábado nós tivemos.”

CARREIRA

Trecho do autor: Quando os experts falam sobre suas vidas profissionais, dois temas surgem: propósito (não financeiro) e autonomia. Nem todos podem ser encontrados em todo trabalho, sempre, mas sem eles o trabalho se torna um fardo miserável.

Nenhuma pessoa em mil disse que felicidade é resultado de trabalhar o máximo que você puder pra ganhar dinheiro e comprar tudo que você quiser.

Esther Brookshire, 76 (trabalhou em vários empregos interessantes antes de passar 25 anos dirigindo um grande programa de trabalho voluntário):

“Minhas netas e filhas dizem ‘oh, eu tenho que ganhar muito dinheiro, para mim é importante ter dinheiro e tal.’ E eu digo para elas: apenas tenha certeza que o que você está fazendo para ganhar dinheiro faz você feliz. Porque um emprego pode pagar 1 milhão de dólares, mas se você não está feliz, você não irá aproveitar. E isso é pra vida toda. Lembre, você tem que acordar de manhã e fazer isso todo os dias.”

TIRE O MELHOR DE UM EMPREGO RUIM

Sam Winston, 81 (ex-engenheiro, trabalhou também como marketing e gerente geral)

“Uma coisa importante para os jovens é ser observador. Não importa qual é a tarefa, se você gosta ou não, é importante aprender tudo que você puder sobre o que acontece a sua volta. Você nunca saberá quando isso pode ser útil mais tarde. Eu tive muitas experiências diferentes ao longo da minha vida nas quais eu realmente não gostava do que fazia e tinha a sensação de que era inútil. Mas as lições que aprendi ao fazer essas coisas foram importantes na minha vida. Por exemplo, eu tive que trabalhar durante a faculdade no que muitos consideram trabalhos sem sentido. Mais tarde eles foram valiosos para mim como empregador e me ajudou a compreender as pessoas. Eu diria para os jovens não importa qual experiência é, aprenda.

Nós não aprendemos apenas com os melhores e mais brilhantes, nós aprendemos com os colegas tóxicos e manés.

Pessoas são muito importantes. Eu costumo dizer que ‘há algo de bom em cada um’o. Na pior das hipóteses, você pode dizer, ‘esse é um mau exemplo’. Isso não quer dizer que as pessoas não sejam boas, a maioria é boa. A implicação é que mesmo que você ache que ela não seja, ela sempre pode servir como mau exemplo. Você pode aprender de todo mundo, não importa quem seja, não importa seu status. ”

SENDO UM BOM CHEFE

Tim Burke, 87 (fazendeiro)

“Seja paciente com cada empregado. Não julgue apressadamente, e lembre que você não vive a vida deles. Há uma porção de coisas que eu gostaria de criticar em meus empregados, mas não faço. Digo pra mim mesmo ‘Tim, você não está lá’. Por isso eu não julgo ou repreendo. As coisas parecem muito diferente pra quem é de fora.

Eu tive três ou quatro indivíduos que sabiam mais do que eu, mas cresceram sobre condições diferentes do que eu. Eu não tentava dizer como o trabalho devia ser feito porque eles sabiam mais sobre aquilo. Eu os indagava — como pode isso? e aquilo? —, mas tinha cuidado pra não chegar botando banca.”

TRABALHO VS ESTILO DE VIDA

Joe McCluskey, 70:

“A vida no trabalho é mais importante que estilo de vida. É o que você faz o dia todo que fornece a mais profunda satisfação na vida. É legal viver sob circunstâncias agradáveis, mas não existe substituto para fazer algo que você gosta e faz bem. Claro que não há problema em ter os dois. Por a mão na massa foi o que me deu a maior satisfação. Uma vez eu trabalhei como gerente corporativo e descobri que era muito chato ficar longe da produção, onde toda a ação estava. Eu, então, abri uma pequena empresa e me empreguei como chefe de produção, e percebi que dobrar minhas mangas todas as manhãs e fazer as coisas era a diversão que eu procurava.

NÃO ESPERE PARA VIVER

Malcolm Campbell, 70 (ex-professor universitário de uma das universidades da Ivy League, se considerava workaholic):

“Parece levar uma vida toda para aprender a viver o momento, mas não deveria. Eu certamente sinto que minha vida sempre foi muito voltada pro futuro. É uma tendência natural —claro que você pensa sobre o futuro, não estou dizendo que isso é ruim. Mas cara, só se tem a ganhar quando se consegue estar no momento e apreciar o que está acontecendo ao seu redor neste exato momento. Eu tenho me tornado cada vez melhor nisso, e tenho gostado. Traz paz e ajuda você a encontrar seu próprio lugar. Mas eu gostaria de ter aprendido isso nos meus 30 anos em vez de nos meus 60 — teria me dado mais décadas para apreciar a vida neste mundo. Essa é a minha lição para os mais jovens.”

DIZER SIM É SINAL DE CORAGEM

Joe Schlueter, 73 (professor de empreendedorismo):

“A lição que eu aprendi é que realmente compensa dizer sim, a menos que você tenha uma razão sólida pra dizer não. E na minha vida profissional, eu não dizia não. Eu concordava com as coisas. Não era sempre divertido, mas frequentemente acabava em algo interessante.

O princípio é verdadeiro no trabalho, em voluntariado, e em todas as outras coisas em que as pessoas dizem ‘você quer fazer isso?’ Bom, por que não? A vida fica chata se você diz ‘não, eu não quero tentar nada novo.’ E pessoas não devem privar porque elas não se consideram qualificadas. Eu consigo pensar em várias coisas das quais eu não me sentia qualificado pra fazer, mas se alguém mais faz, você pode aprender. Ou compensar isso em vários outros jeitos.

Então, se você é uma dessas pessoas que diz ‘não, não consigo fazer’ ou ‘não, não quero’, está perdendo muita coisa que a vida tem a oferecer. A vida é uma aventura, mas pra aproveitar você tem que dizer sim para as coisas.”

Fonte: Pequeno Guru

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