Como vencer a frustração e a desmotivação


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Um dos maiores mitos que cercam pessoas bem sucedidas é que elas “devem” se sentir motivadas o tempo todo, não devem conhecer a frustração e conseguem fazer tudo que se propõem, sempre.

Motivação é como uma chama, ela ascende, queima, mas invariavelmente apaga. Ninguém vive constantemente motivado, mesmo aquelas pessoas que parecem estar sempre com a corda toda.

Hoje vamos falar sobre os aspectos que podem ampliar os efeitos negativos da frustração e da desmotivação e também sobre o que fazer para evitar e superar essas armadilhas, em sua maioria, mentais.

De vez em quando, nos sentimos apáticos, como se o mundo não fizesse mais sentido. Outros dias, nossas expectativas são quebradas, ficamos frustrados. Ainda passamos por aqueles períodos em que a vida está tão maluca e confusa que por mais que queiramos produzir, as coisas simplesmente não acontecem.

Em primeiro lugar, precisamos entender que esses períodos fazem parte da vida. Até um certo ponto, podemos nos permitir nos sentir pra baixo sem culpa. Lutar contra absolutamente todo traço indesejável pode nos causar ansiedade, estresse e até mesmo depressão quando esta luta parece não surtir efeito. Precisamos nos permitir sermos humanos, sem qualquer expectativa de que poderíamos manter um desempenho perfeito a todo instante.

Dito isso, podemos lançar mão de técnicas e principalmente, mecanismos mentais, para potencializarmos a autodisciplina e vencermos parte desses momentos negativos. O importante é não se encher de culpa quando não conseguimos manter a produtividade. Nós passamos por altos e baixos e está tudo bem. O segredo do progresso é não extender esses baixos por períodos muito longos, “perdendo os bondes” das oportunidades que passam.

1. A sua situação NÃO É DIFERENTE!

Um dos maiores – senão o maior – empecilho para o progresso pessoal é convencer a si mesmo que a sua situação é diferente dos demais e sendo assim, nenhuma dica, nenhuma técnica, nenhuma solução se aplica a você.

Esse mecanismo é frequentemente usado para justificar o fracasso ou baixo desempenho pessoal. Qualquer que seja a hipotética solução para o seu problema, lançada por outros como sugestão, ela não se aplica ao seu caso, por que “tem isso”, “tem aquilo” e “tem mais aquele outro”, problemas estes intransponíveis e que justificam “totalmente” a sua situação, ausentando-o da culpa.

Alguém cita um caso em que algo parecido foi solucionado e você responde evidenciando as diferenças entre você e o outro, numa tentativa de justificar porque o outro foi capaz de resolver a situação, mas você não poderia. Essa justificativa é a sua desculpa. Você acredita nela com tanta fé que engessa a si mesmo. Você não faz nada porque se convenceu de que na sua situação não há nada o que fazer, apesar de entender que os outros possam superar os mais diversos tipos de problemas. É que a minha situação é diferente, sabe? Não, não é! Mas enquanto você estiver convencido de que é sim, e que por isso você não pode se mexer, você não vai se mexer. Parece tão besta, não é? E é!

2. Você não é o centro do universo!

A primeira situação geralmente nos leva a essa segunda: a pessoa se considera o centro do universo. A situação dela é diferente, por isso ela não pode fazer nada, apesar dos outros conseguirem superar situações semelhantes, os detalhes da situação dela fazem com que ela nunca encontre um exemplo parecido o suficiente para que possa se convencer de que ela também pode. Esse raciocínio detalhista – o mínimo detalhe separa a pessoa do resto do mundo, faz com que a pessoa se veja como centro do universo. Tudo acontece por causa dela, tudo acontece para atrapalhar a vida dela, tudo o que não corresponde 100% com suas expectativas a frustra e o mundo conspira contra ela.

É claro que esse tipo de raciocínio é inconsciente – quando é consciente a pessoa é diagnosticada com esquizofrenia! Na prática, essa é a pessoa que fica de cara feia com os outros por qualquer motivozinho besta, que se frustra com o empecilho mais insignificante. A impressora não imprime? Estragou o dia dela! O colega no trabalho não deu bom-dia?Deve estar de conchavo com os outros pra me boicotar!

A pessoa que se vê como centro do universo sempre acha que tudo o que acontece tem um motivo e esse motivo tem a ver com ela. Ela não pensa que o cara que não dá bom-dia no trabalho pode estar com algum problema pessoal ou ser simplesmente desatento – ou mesmo mal educado. Ele evidentemente tem alguma coisa contra mim! Só pode ser! Do contrário, por que não me cumprimentaria?

Essas pessoas tendem a ser supersticiosas, todo sinal é para elas. Tudo é uma sincronicidade, positiva ou negativa. A reação e atitude das pessoas sempre tem a ver com o que pensam delas. No final das contas, essas pessoas sofrem muito e se tornam vulneráveis a frustrações e humores. Se o universo está conspirando a favor, elas se sentem bem e produzem, se as coisas parecem não estar dando certo, elas se frustram e se voltam contra o mundo, exigindo de cara fechada que o mundo volte a ser como elas querem que ele seja.

Quem se identifica com esse perfil precisa abrir a cabeça e ver que o mundo é maior que seu mundinho pessoal. Procurar conhecer as histórias das outras pessoas é um bom começo. Ver que os outros também sofrem, que há pessoas no mundo que nem sequer conhecem a vida como nós a conhecemos. Até mesmo filmes e biografias podem ajudar, dando exemplos de vidas alheias para tirar a pessoa de seu casulo. Ouvir mais os outros também é de grande valia, tentar perceber que as pessoas fazem as coisas por seus próprios motivos.

3. Não sinta pena de si mesmo

As duas situações anteriores nos trazem para uma condição autoperpetuadora que trava o progresso pessoal e instala as raízes de condições sérias como a depressão.

A pessoa que tem pena de si mesma acha que a situação dela é diferente – por isso é que ela nunca conseguiu (ou nunca consegue) superá-la; ela também se acha o centro do universo, tudo conspira contra ela, as pessoas fazem as coisas porque não gostam dela, ela se vê como uma pobre vítima.

Com frequência, essas pessoas lançam mão de argumentos do tipo:qualquer pessoa na minha situação reagiria da mesma forma. Esse é um erro, muito comum, mas muito sério, principalmente porque é uma ideia que parte do princípio de que existem reações obrigatórias para cada problema. Uma das frases mais comuns na boca dessas pessoas é: o que você queria que eu fizesse?, como se a ação a qual ela está tentando se desculpar fosse obrigatória como resposta ao que lhe aconteceu.

A autopiedade, como é chamada a “pena de si mesmo”, destrói a autoestima e a autoconfiança, ao colocar a pessoa em uma condição inferior às outras.

A frustracão é apenas um reflexo desse processo. Ela nasce quando a pessoa já largou a toalha e desistiu de tentar solucionar um problema, quando ela se volta contra o “causador” do obstáculo, mesmo que seja algo inanimado como tecnologia, e fica triste, se sentindo derrotada.

4. Ajuste suas expectativas

Perfeccionismo é a rota mais certeira para o fracasso. Expectativa irreal é o caminho mais garantido para a depressão.

Em muitos casos, a frustração e a desmotivação surgem porque a pessoa vê que a vida não está se desenrolando como ela gostaria, mas ela nunca se dá o trabalho de refletir sobre essas expectativas.

Às vezes, é muito bom que a vida não esteja acontecendo como queremos! Nossas expectativas podem ser frutos de sonhos e fantasias que construímos em tempos pretéritos – quando éramos diferentes – e que há muito tempo não são atualizadas.

Ao longo da minha vida, eu me dei conta de que foi muito bom que certas coisas que um dia eu quis, nunca aconteceram.

Nós associamos nossas expectativas com felicidade. O psicólogo de Harvard, Daniel Gilbert, afirma que nós não sabemos o que nos fará felizes e que geralmente nossos palpites a esse respeito estão errados. Quando botamos muita fé em uma ideia e desejamos aquilo justamente porque achamos que a realização nos fará felizes, estamos nutrindo a condição perfeita para um estado de depressão (quando conseguimos o que desejamos, mas percebemos que a felicidade “não veio junto”).

Meu livro, Um sentido para a vida, discorre bastante sobre este tema, sobre o quanto precisamos desassociar nossos planos da ideia de felicidade para construirmos uma vida realmente satisfatória e plena.

Se você se encaixa neste perfil, ou seja, se você se sente frustrado e desmotivado porque a vida não está indo do jeito que você quer, pense bem nos motivos de você querer uma vida diferente. O que exatamente você quer que mude?

Veja que você pode estar certo. Nem sempre nossas expectativas são irreais, mas é necessário colocar reflexão em cima e pensar bem sobre porque queremos aquilo. As maiores decepções decorrem dos sonhos “mal pensados”, aquelas coisas que “queremos porque queremos”, sem um motivo muito claro e racionalizado e principalmente, quando achamos que se conquistarmos X ou Y, seremos felizes – esta sim é a maior de todas as armadilhas!

5. Valorize as pequenas vitórias

Quando mantemos nossos olhos focados no prêmio maior, deixamos de notar nossos avanços ao longo do caminho. Quando eu comecei a aprender piano, eu costumava ouvir gravações de pianistas famosos tocando concertos e estudos dificílimos. Eu me sentia desmotivada, porque dia após dia eu simplesmente não conseguia reproduzir um trecho sequer das músicas que eu gostava. Eu não percebia que diariamente eu apresentava uma evolução, eu não notava porque estava tão triste por ser uma pianista tão “ruim” que muitas vezes cheguei a desistir. Ao longo dos anos, eu comecei e parei inúmeras vezes até que resolvi levar a sério, então já adulta. Eu peguei um caderno e diariamente eu anotava detalhadamente tudo o que fazia, os exercícios, as escalas, as músicas, comentava os erros, o nível, o progresso. Foi quando eu comecei a notar que realmente havia uma evolução literalmente diária – todos os dias eu conseguia tocar melhor as mesmas músicas do que eu as havia tocado no dia anterior. Eu ainda levei anos para conseguir tocar minhas peças favoritas, mas ser capaz de visualizar minha progressão gravada no papel, dia após dia, fez toda a diferença.

Durante este período, ao invés de tentar logo de cara tirar músicas acima do meu nível, como eu costumava fazer, eu comecei do zero, com peças desde o nível 1, como se fosse iniciante. A cada nova música conquistada, por mais fácil que fosse, eu me sentia realizada e motivada. Usava essa energia para progredir gradualmente para trabalhos mais complexos até chegar onde eu desejava ter chegado instantaneamente quando comecei a tocar aos 7 anos de idade.

O fato de conseguirmos ver o final do caminho, ou seja, a meta magna, onde queremos chegar, não deve nos desmotivar com as etapas que devemos percorrer até chegarmos lá.

Chega a ser um clichê, mas precisamos curtir o caminho, mesmo sabendo que o objetivo é chegarmos a um ponto X. A melhor forma de fazer isso é quebrar a meta em “metinhas” menores, vendo cada pequeno êxito como uma vitória em si. Dessa forma, não só nós percebemos que realmente estamos progredindo, mas tornamos a jornada mais interessante e prazerosa.

6. Seja criativo

Muitas vezes nos frustramos porque não conseguimos resolver problemas do jeito que sempre fizemos – ou simplesmente não temos a menor ideia de como “se resolve” aquele tipo de problema específico que estamos encontrando naquele dia.

Manter a calma e simplesmente começar a fazer um brainstorm de todas as opções possíveis deve ser sempre a primeira opção. A impressora não imprime? Ok, quais são todas as opções de problemas que poderiam fazer uma “impressora não imprimir”? Está ligada na tomada? Ok, está. Está ligada no computador? Ok, está. O computador tem o software para se comunicar com a impressora? E assim por diante. Quando não sabemos nada sobre o tal problema, procuramos no Google. A internet está aí pra isso.

Esse processo de tentativa de solução de problemas exige criatividade. A pessoa sem criatividade não consegue pensar em nenhuma alternativa que ela já não conheça. Essa falta de criatividade engessa a pessoa de várias maneiras, não só com os comuns problemas com tecnologia que todos nós encontramos diariamente. Nossas metas nem sempre podem ser conquistadas em uma linha reta. A criatividade é necessária para sugerir opções quando o que pensamos que poderíamos fazer não dá certo. O resultado da falta de criatividade é a frustração. A pessoa tenta fazer o que sabe, não dá certo e ela não sabe mais o que fazer. Resultado: ela fica emburrada.

Tem um ditado clássico que diz que tentar atingir um resultado diferente fazendo as coisas do mesmo jeito é insanidade. A falta de criatividade leva a pessoa a travar na mesma tentativa incessantemente. Ela tenta, tenta, tenta, sempre do mesmo jeito e se frustra quando continuamente não consegue o resultado desejado.

A criatividade tem muito a ver com raciocínio lógico e isso surpreende muitas pessoas que acham que a criatividade está ligada ao lado direito do cérebro e tem a ver com artes e improviso. Tem, mas isso não quer dizer que o lado “racional” do cérebro não é usado no processo criativo! Criatividade é basicamente a capacidade de criar ou tentar uma opção que não foi anteriormente aprendida. O raciocínio lógico ajuda a pessoa com o tal brainstorm que ela precisa fazer para levantar todas as opções de solução de um problema, incluindo opções que ela nunca testou ou que nunca ouviu falar. Ao pensar sobre o problema, ela o entende na hora e sua mente produz um rol de ideias a serem testadas como hipóteses de possíveis soluções, mesmo que ela nunca tenha se deparado com aquele problema específico antes. É nessas situações que entra a arte do improviso, mesmo que embasada em um raciocínio puramente lógico!

7. Pare de reclamar e simplesmente faça o que tem que ser feito

Esse é um dos grandes segredos da disciplina. Às vezes não estamos com vontade de fazer as coisas, mas a pessoa disciplinada vai e faz mesmo assim. Um dos maiores erros que as pessoas pouco produtivas cometem é esperar se sentirem bem para fazerem o que precisam. Esperam motivação, esperam inspiração, esperam sentir vontade.

Como escritora e pianista, duas coisas que exigem tremenda disciplina, eu posso afirmar que nem sempre dá vontade de fazer o que precisa ser feito. Às vezes a vontade é simplesmente não fazer nada, às vezes a vontade é fazer alguma outra coisa – algo que não precisa ser feito naquele momento. No artigo anterior, falamos sobre o hedonismo, aquela tendência de só querer fazer o que dá vontade, de só querer ser feliz e sentir prazer. É isso o que destrói a disciplina e quem cede ao hedonismo com muita frequência, geralmente não consegue conquistar nada na vida, pois tudo exige algum tipo de dedicação e isso envolve fazer as coisas quando não estamos a fim.

A reclamação tem um efeito inibidor da ação pois funciona como uma justificativa que explica o motivo de você não poder fazer nada, quando na realidade, você poderia estar fazendo alguma coisa. Quando existem obstáculos reais que dificultam a ação, pense “fora da caixa”, trabalhe em outros aspectos das suas metas, invista no aprimoramento pessoal, mas FAÇA alguma coisa!

Disciplina é um hábito. Ninguém nasce disciplinado. Isso significa que todo mundo pode aprender. A disciplina começa com o esforço pessoal de lutar contra a inércia e a própria vontade e fazer o que precisa ser feito. Aí entram também planejamento, para saber exatamente o que precisa ser feito, sem confusão e dispersão, auto-organização para não se perder em meio a mil e uma coisas e um senso estoico, para pisar na vontade pessoal – quando esta é contrária ao planejado – se manter firme e forte fazendo o que precisa ser feito, sem pestanejar e sem reclamar. Isso não é fácil, nem um pouco! Mas é para os poucos que construirão vidas bem sucedidas.

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