Archive for abril 13, 2012

FILOSOFIA DE VIDA EMPREENDEDORA

Não há filosofia empresarial que resista sem resultados (lucros) e, ao mesmo tempo, não há empresa que resista sem uma filosofia de trabalho, em geral muito bem fundamentada em sua visão, missão e valores claros para a sociedade e para os seus empregados. Esse é um dos motivos pelo qual eu acredito piamente na importância das diretrizes estratégicas, algo que, infelizmente, uma boa parte das empresas e dos empresários não entende ou, quando entende, não leva tão a sério quanto deveria.

De acordo com Ken Blanchard, autor de Liderança de Alto Nível, “lucro é o aplauso que você recebe por cuidar bem de seus clientes e por criar um ambiente motivador para o seu pessoal.” Peter Drucker, um dos maiores pensadores da administração, compartilhava da mesma filosofia, expressa de maneira diferente, porém com a mesma essência: “lucro é o subproduto das coisas bem feitas”. Em síntese, cuidar bem dos seus clientes, fazer as coisas bem feitas e criar um ambiente motivador para os seus colaboradores são reflexos de uma filosofia de vida empreendedora.

Uma das perguntas que costumo fazer com freqüência nos meus cursos de planejamento estratégico ou de desenvolvimento gerencial diz respeito à visão, à missão e aos valores da empresa. Acredite: menos de 10% dos participantes sabe do que se trata. Muitos já ouviram falar, outros nunca ouviram falar e boa parte me olha com desdém afirmando que isso é bobagem, como me disse certa vez o empregado de uma corporação multinacional: “desculpe, professor, mas esse negócio de visão e missão é uma grande babaquice, o que importa mesmo é o resultado final”. Eu estava inspirado naquele dia e a resposta foi simples e direta: “realmente, no seu caso não importa mesmo, afinal você está há mais de 25 anos na função esperando a aposentadoria chegar. Duvido que o seu patrão compartilhe da mesma idéia considerando que ele criou um império ao redor do mundo.”

Eu poderia ter sido menos rude e mais efetivo, pois tudo depende de o que ele entende por visão e missão. Lamentavelmente, a maioria das pessoas pensa exatamente igual a ele, pois muitos ainda continuam trabalhando naquela empresa apenas para sobreviver, outros para pagar as contas e outros porque não encontram coisa melhor. E como eu sempre repito, não há nada pior do que trabalhar para uma empresa onde o sentido de realização e o de contribuição são nulos.

Tudo começa com uma visão. A máxima do planejamento estratégico continua muito atual: se você não sabe para onde vai, qualquer lugar serve. E mais, se o seu pessoal não sabe para onde vai, sua liderança não fará a menor diferença, portanto, pensar estrategicamente significa criar um propósito significativo para o seu negócio. Líderes como Silvio Santos, Rolim Amaro, Sam Walton, Maurício Klabin e Jack Welch sabiam exatamente onde queriam chegar quando ao tomar a sábia decisão de se tornar uma referência em seu mercado de atuação e de criar valor para o seu negócio.

Quando eu circulo pelas empresas, geralmente, procuro localizar aqueles quadrinhos pendurados com a missão, a visão e os valores da organização. Se você prestar atenção, mais de 90% das pessoas que trabalham na organização não sabe para que serve, não sabe quem criou e não sabe como aquele conteúdo ali expresso pode fazer a diferença entre as empresas que admiramos, e sempre recomendamos aos amigos, e as empresas que odiamos e, pela mesma razão, não recomendamos nem para os inimigos.

Uma filosofia de vida empreendedora pode existir em qualquer parte da organização. Você não precisa esperar nem depender de uma visão organizacional para começar a praticá-la na área ou no setor onde trabalha, afinal, princípios, valores e virtudes valem tanto para sua vida pessoal quanto profissional. Ter uma filosofia de vida empreendedora significa ter um norte para as suas ações, uma noção mais clara do futuro, um propósito de vida.

Um negócio bem-sucedido não depende apenas de estratégia, máquinas, equipamentos ou capital de giro. Tudo isso é importante, mas o propósito de uma organização vai além dos lucros e o que projeta uma empresa para frente não são apenas os lucros, mas os princípios e os valores baseados numa filosofia de vida empreendedora.

Qualquer ser mediano pode criar uma empresa e ter sucesso por algum tempo, porém nenhum deles consegue sustentá-la sem uma missão e uma visão que realmente funcione. Lembre-se de que uma visão e uma missão independem da sua posição na empresa, portanto, não espere que o planejamento estratégico resolva aquilo que não está na essência do seu negócio.

Na primeira metade do século passado, empresas como 3M, Johnson & Johnson, Ford, Sony, Honda e tantas outras não sabiam o que era planejamento estratégico, entretanto, seus idealizadores tinham muito claro em mente aquilo que desejavam para o futuro. Portanto, pense diferente, tome a iniciativa e crie valor para sua empresa.

Para encerrar a lição, quero compartilhar aqui os 3 elementos-chave de uma visão arrebatadora, definidos por Jesse Stoner e Drea Zigarmi, pesquisadores do assunto. Isso contempla boa parte da filosofia de vida empreendedora defendida no novo livro, Manual do Empreendedor de Jerônimo Mendes. Se você conseguir definir claramente a resposta, sua vida e seu empreendimento têm boas chances de prosperar.

 

Propósito significativo: qual é o seu negócio?

Uma imagem clara do futuro: como será seu futuro, no caso de ser bem-sucedido?

Valores claros: o que guia seu comportamento e suas decisões diariamente?

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DE PERTO NINGUÉM É NORMAL

De perto ninguém é normal - Jerônimo MendesAdoro conversar. Se isso me rendesse um bom dinheiro, talvez eu passasse dois terços do dia conversando. Entre uma conversa e outra, o escritor sempre consegue extrair ótimos insights, se estiver atento, é óbvio, como, por exemplo, o título desse artigo, proferido por um amigo.

De perto ninguém é normal é um dos versos de Vaca Profana, música de Caetano Veloso. Existe algo parecido por meio do Millôr Fernandes, escritor e jornalista de primeira. Frase inteligente, de pura reflexão, indiscutível: “como são maravilhosas aquelas pessoas que não conhecemos muito bem”.

Você já percebeu que, de vez em quando, existe a impressão de que todo mundo está bem, menos você? Se você tem o hábito de folhear revistas, principalmente de moda, de esportes ou de celebridades, isso se torna mais visível. Como é que essa gente consegue se projetar e se cuidar com tanta facilidade?

Não é necessário ir longe. Olhe para o quintal do vizinho ou para a mesa do colega de trabalho ou, quem sabe, para a namorada do seu amigo. A grama do vizinho parece sempre mais verde. Existe grande dificuldade de o ser humano valorizar o que está dentro dele ou próximo a ele.

Por que isso acontece? Pode-se estabelecer um tratado de justificativas, das mais variadas possíveis, com base em estudos antropológicos e filosóficos, mas esse não é o meu propósito aqui. Ao contrário, desejo que reflita profundamente sobre isso e tente mudar o seu ângulo de visão.

De perto, ninguém é normal mesmo. Todo mundo possui esquisitices, inaceitáveis do ponto de vista alheio. Alguns disfarçam com facilidade, outros não. De um lado estão os dissimulados. Do outro, os desencontrados, sob o meu ponto de vista. Porém, quem disse que o meu ponto de vista está correto?

Cada pessoa tem pontos fortes e fracos. Se a autenticidade do ser humano fosse colocada em prática, o ambiente ficaria insuportável, portanto, vez por outra, é necessário um pouco de flexibilidade, ou de jogo de cintura, se preferir, mas sem se descuidar dos princípios.

De longe, todos parecem melhores, porém, basta se aproximar das pessoas e iniciar uma conversa para descobrir três coisas importantes: 1) ninguém é melhor do que você; 2) todo mundo tem problemas, parecidos ou bem piores; 3) em diversos aspectos, você pode descobrir que está bem melhor do que elas.

Qual é o problema, então? O foco de atenção. Inveja e comparação são dois males distintos que andam de mãos dadas, principalmente porque não levam em conta os antecedentes. Sua história é única e somente você sabe o que fazer com ela. O seu passado não muda mais, porém, o seu futuro dependerá muito do que acontecer a partir de agora. Talvez você precise de um novo olhar sobre os acontecimentos.

A MAIS PURA REALIDADE

A mais pura realidade - Jerônimo Mendes

A realidade é o que ela é e não o que você gostaria que fosse, dizia o meu instrutor de Coaching. Ouvi isso repetidas vezes para nunca mais esquecer, razão pela qual eu transfiro essa máxima com a mesma facilidade para as pessoas ao meu redor. Acredito piamente nisso.

Eu queria tanto que os meus filhos me ouvissem mais, a minha mãe fosse menos teimosa, a minha esposa concordasse mais comigo, as pessoas fossem mais solidárias, os políticos menos corruptos e o chefe mais compreensivo. Porém, a realidade é o que ela é e não o que eu gostaria que fosse.

São as expectativas irreais do ser humano. Queremos o tempo todo que as pessoas pensem exatamente como nós, afinal, discutir e fazê-las mudar de ideia dá muito trabalho. Não raro, somos convencidos por elas e entramos em conflito, pois isso contraria a nossa frágil convicção.

Quando não há concordância, a maioria parte para o conflito, revida ou despeja palavrões para aliviar a frustração de ser contrariado. A minoria recolhe-se, estrategicamente, e sabe que conflito é sinônimo de dor, estresse e desperdício de energia.

O ser humano, em geral, é frágil. Uma simples confrontação é suficiente para tirá-lo do sério e fazer com que cometa bobagens. Alguns elevam o tom da conversa, outros tomam medidas extremas, das quais poderão se arrepender para o resto da vida, mas isso não conta no calor da emoção.

Essa pura realidade define toda condição humana. Alguns aceitam as regras do jogo e se submetem. Outros preferem pagar para ver. Isso é bom ou ruim? Depende da quantidade de energia que a pessoa quer dispensar. A questão é bem simples: vale a pena?

Grandes quantidades de energia são perdidas com pequenas quantidades de bobagens. Isso é determinado pelo nível de amadurecimento da pessoa. Quanto mais sábio, menos imbecil. Parece óbvio, mas não é. Se assim fosse, os índices de violência e o de criminalidade estariam no subsolo e os conflitos tenderiam a zero.

Alguém me disse que o conflito é saudável, pois auxilia no processo de evolução e crescimento, entretanto, a impressão que se dá é a de que quanto mais o ser humano evolui, menos racional se torna, e não é por falta de informação. É o lado obscuro de cada um, o qual eu não faço questão de conhecer.

Infelizmente, a indignação diante dos fatos não é suficiente para mudar o estado mental das pessoas. Embora nos rebelemos contra tudo isso, a rebeldia se volta contra nós mesmo por meio do estresse e de outras doenças convencionais.

Toda convicção funciona até determinado limite. Embora você possa sustentá-la com todas as suas forças, por respeito, talvez o seu interlocutor se cale e o deixe falar, mas, em geral, não é o que acontece. Sustentar uma posição num mundo de valores equivocados, por vezes, é perigoso.

Existem certas coisas para as quais o embate não vale o esforço, pois, além de sugar energia ainda cria uma animosidade difícil de ser eliminada. Assim, é melhor ignorá-las e seguir vivo. Isso não diminui a sua reputação muito menos o seu caráter.

Por tudo isso, pare de sofrer e desperdiçar energia. Quem sofre antes do necessário sofre mais do que necessário. Quem desperdiça energia em coisas que não acrescentam nada ao seu desenvolvimento pessoal e profissional, irrita-se com frequência e se desgasta sem necessidade.

Assim sendo, discuta menos e aproveite melhor a vida. Sustente suas convicções até onde valha a pena. O mundo é muito complexo e as pessoas são mais ainda. Concentrar energia para mudar o ponto de vista alheio é bem mais difícil do que recolher o seu temporariamente, afinal, você não precisa mudá-lo.

O tempo é cruel e o mundo não vai esperar você convencer as pessoas do seu ponto de vista nem mudar a sua própria intransigência. Ele segue seu curso e privilegia aqueles que se melhor se adaptam às inconveniências sem se descuidar dos seus valores e princípios.

Pense nisso e seja feliz!

Como ser mais criativo

Eu cresci com gana de fazer algo criativo, de me destacar. Eu também acreditava que a criatividade era algo mágico e genético. Logo que eu fiz oito anos, eu comecei a testar as artes, uma por uma, para ver se eu havia herdado algum talento.

Eventualmente, me tornei jornalista. Por muitos anos, contei as histórias de outras pessoas. Eu era bem sucedido, mas raramente me sentia realmente criativo.

A primeira luz que tive apareceu no meio dos anos 90. Enquanto escrevia um livro chamado What Really Matters – Searching for Wisdom in America (O que Realmente Importa – Buscando por Sabedoria na América), participei de um seminário de cinco dias sobre desenho, com Betty Edwards, autora do Drawing on the Right Side of the Brain (Desenhando do Lado Direito do Cérebro).

Quando Betty deu uma olhada no autorretrato que desenhei no primeiro dia, ela sorriu. Meu desenvolvimento artístico, ela disse gentilmente, parecia ter sido paralisado quando eu tinha por volta de seis anos. Isso não era, ela se apressou em acrescentar, evidência de falta de habilidade, mas de falta de treino.

Como ser mais criativo

Desde cedo, somos ensinados na escola a desenvolver as capacidades racionais e linguísticas do lado esquerdo de nosso cérebro, que é direcionado à conquista de objetivos e impaciente por conclusões.

O hemisfério esquerdo do cérebro dá nome aos objetos para reduzi-los e simplificá-los. Um nariz se parece com outro nariz, por exemplo. Então, quando nos pedem para desenharmos um, nós nos remetemos à memória que temos de “nariz”, o reproduzimos e seguimos em frente.

O hemisfério direito, por outro lado, é mais visual que verbal. Ele tem a capacidade de ver de maneira mais profunda e sutil que o esquerdo, imergindo-se no que realmente está lá, em toda a sua riqueza. Quando se aprende a usá-lo, Betty nos disse, desenhar o que você vê é, relativamente falando, uma brisa.

Como era de se esperar, ao quinto e último dia do workshop, eu consegui desenhar um autorretrato que era, sem sombra de dúvidas, eu mesmo, e surpreendentemente realista. Após alguns meses de prática, eu conseguia me autodesenhar com um nível significativo de habilidade e até mesmo expressionismo. Eu tinha começado a efetivamente aprender uma linguagem não verbal completamente nova.

Mas o que isso tem a ver com criatividade? No fim das contas, muito.

Nos últimos cem anos, pesquisadores chegaram a um número razoável de consensos com relação aos estágios previsíveis do pensamento criativo. Foi Betty Edwards a primeira pessoa a me mostrar que os estágios variam entre as predominâncias dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro.

1. Saturação. Uma vez que o problema ou desafio criativo seja definido, o próximo estágio da criatividade é uma atividade do hemisfério esquerdo que paradoxalmente requer que a pessoa se absorva naquilo que ela já conhece. Qualquer rompante de criatividade se encontra inevitavelmente nos ombros de tudo aquilo que veio antes dele. Para um professor, pode ser fazer um mestrado. Para mim, envolve ler bastante e com atenção, e depois separar, avaliar, organizar, selecionar e priorizar.

2. Encubação. O segundo estágio da criatividade começa quando começamos a nos distanciar do problema, tipicamente porque o hemisfério esquerdo de nosso cérebro parece não saber como resolvê-lo. A encubação consiste em refletir acerca das informações, muitas vezes inconscientemente. Exercícios intensos podem ser uma ótima maneira de migrar para o hemisfério direito do cérebro de modo a acessar novas ideias e soluções. Depois de escrever por 90 minutos, por exemplo, a melhor coisa que posso fazer para refrescar meu cérebro é dar uma corrida.

3. Iluminação. Os momentos “ahá!” – espontâneos, intuitivos, chegam sem ser convidados – caracterizam o terceiro estágio da criatividade. Onde você está quando costuma ter suas melhores ideias? Chuto que não é quando você está sentando em sua mesa, ou tentando conscientemente ser criativo. Pelo contrário, geralmente é quando você dá um tempo para o seu hemisfério esquerdo e está fazendo alguma outra coisa, seja fazendo exercícios, tomando banho, dirigindo, ou mesmo dormindo.

4. Verificação. No estágio final da criatividade, o hemisfério esquerdo recupera sua dominância. Esse estágio é sobre desafiar e testar o rompante criativo que você teve. Cientistas fazem isso em laboratório. Pintores o fazem na tela. Escritores o fazem transformando uma visão em palavras.

A chave principal para nutrir nossa criatividade intencionalmente é entender como ela funciona. Eu descobri que os estágios frequentemente se desenvolvem em sequências imprevisíveis e se envolvem uns com os outros. Mesmo assim, tê-los em mente me ajuda a saber onde estou em um processo criativo e como chegar onde eu preciso.

Por fim, a maior criatividade que você pode atingir depende de fazer ondas frequentes – aprender a envolver todo o cérebro movendo-se intencional e flexivelmente entre os hemisférios direito e esquerdo, atividade e descanso, esforço e relaxamento. Essa também é uma boa receita de como se deve viver.

Texto de Tony Schwartz é presidente do “The Energy Project” (Projeto Energia), uma empresa que ajuda indivíduos e empresas a adquirirem maior produtividade. Colunista frequente da prestigiada publicação de negócios Harvard Business Review, editada pela Universidade de Harvard, Tony é autor de diversos best-sellers do New York Times e do Wall Street Journal como Be Excellent at Anything (Seja Excelente em Tudo) e The Power of Full Engagement (O Poder do Comprometimento Total). O site pessoal do autor é: http://www.tonyschwartz.com

A fantástica fábrica de estupidez

Há pouco tempo, deparei com uma situação preocupante, durante uma aula do curso de Jornalismo. Diante da projeção da imagem da Vênus de Botticelli, em um slide, na disciplina de Semiótica, parte da turma desandou a interromper a aula com comentários do tipo “Olhem que gorda!”, ou coisa que o valha, julgando a imagem a partir da padronização estética de hoje.

Fosse uma conversa de bar e talvez os comentários passassem naturalmente despercebidos. Vindos de alunos de Jornalismo, geram (ou deveriam gerar) preocupação.

A Vênus representa o padrão estético da época em que foi pintada (entre 1482 e 1484). Recontextualizada, já não se enquadra no ideal teórico. Atualmente, a moda e os produtos culturais nos impõem uma forma de beleza mais próxima da beleza física dos faraós egípcios, como estão hoje.

Para além da demonstração de preconceito que o fato citado acima revela, ele foi, para mim, uma comprovação de que, mesmo em ambientes onde a mídia é discutida, seus padrões, sua visão única e restrita, permanecem dificultando o desenvolvimento de um raciocínio original. Os alunos críticos da aparência da Vênus parecem limitar-se a aceitar o que se lhes impõem como ideal, certamente incapazes de expandir o pensamento, ir além, distanciar-se de seu mundinho cultural midiaticamente restrito. E, o que é ainda pior, julgam o mundo e as pessoas a partir dessa compreensão pobre. Ora, espera-se que um jornalista saiba abstrair minimamente o valor humano das diferentes culturas em que se insere.

Para além dos modismos vigentes

Não há que culpá-los, no entanto. Falham apenas por ignorância e falta de estudo do contexto das coisas que os cercam. O problema é que é exatamente a partir da ignorância, e da estupidez dela derivada e sedimentada em precárias visões de mundo, que nascem todas as formas de preconceito. E, infelizmente, essas pessoas não são minoria entre os presentes e futuros profissionais de mídia.

Em seu livro A ditadura da beleza e a revolução das mulheres, o psiquiatra Augusto Cury tece uma crítica pujante à mídia. No prefácio desse romance, ele explicita a realidade que o levou a escrevê-lo: “Qualquer imposição de um padrão de beleza estereotipado para alicerçar a auto-estima e o prazer diante da auto-imagem produz um desaste no inconsciente, um grave adoecimento emocional.” Os padrões sempre excluem quem não pode neles se enquadrar, mas todos ficam a eles expostos constantemente, seja em revistas, na televisão (o discurso jornalístico arrogantemente ensinando a viver/consumir), jogos de videogame etc. Penso que as pessoas deveriam ter liberdade suficiente para criar suas próprias opiniões, reconhecendo a existência de outras diversas e contrárias.

Talvez isso seja mesmo muito careta, em meio à selvajaria de hoje em dia, mas creio que ainda vale a pena acreditar em uma sociedade em que as pessoas vejam, antes, o lado humano, intrínseco a tudo em nossa sociedade, e deixem de lado padrões que, a partir da contaminação cultural, tornam-se modelos para que autoridades em estupidez julguem, condenem e humilhem seus semelhantes. Mas, é claro, se for para construirmos uma sociedade mais humana, precisaremos de indivíduos emancipados (para usar um termo do filósofo Theodor Adorno), com pensamento próprio, capazes de compreender o mundo para além dos modismos intelectuais dos discursos vigentes. E sequer podemos proibir nossos filhos de assistir TV.