App para achar mulheres serve de alerta sobre privacidade no Facebook


JOHN BROWNLEE
DO “CULT OF MAC”

“Cara, você tem muitos aplicativos no seu celular.”

“Bem, é o meu trabalho.”

“Qual é o seu favorito?”

“Ah, não consigo escolher. Mas quer ver um para deixá-lo arrepiado?”

Reprodução
Tela inicial do aplicativo Girls Around Me, que teve acesso revogado pelo Foursquare e foi retirado da App Store
Tela inicial do aplicativo Girls Around Me, que teve acesso revogado pelo Foursquare e foi retirado da App Store

Era o fim de um dia agradavelmente quente –29 graus em março–, e estávamos todos bebendo coquetéis no quintal do meu amigo, que era ao mesmo tempo seu fumódromo, área para beber, videira, sala de descanso e churrasqueira. Estava curtindo o anoitecer com um grupo de seis dos meus melhores amigos, e todos pareciam interessados no que eu dizia, exceto a minha namorada, que imediatamente fez uma careta.

“Girls Around Me? De novo?”, disse, repreendendo-me. “Não mostre isso a eles.”

Ela se virou para os nossos amigos, desculpando-se.

“Ele ficou obcecado com esse aplicativo. É assustador.”

Eu gaguejei e neguei, mas era verdade. Tornara-me obcecado com o Girls Around Me, um aplicativo que destila perfeitamente muitas das mais preocupantes questões relacionadas a redes sociais, privacidade e ascensão dos smartphones em um estudo de caso perfeito que qualquer um pode entender.

É um aplicativo que pode ser interpretado de diversas maneiras. É tão inocente quanto insidioso, pode provocar tanto risadas quanto lágrimas, é tanto um brinquedinho qualquer quanto algo com potencial para ser usado como ferramenta para estupradores e “stalkers”.

E, mais do que tudo, é um alerta sobre privacidade.

A única maneira de realmente explicar o Girls Around Me para as pessoas é executá-lo e mostrar-lhes como funciona, então fiz isso. Coloquei meu iPhone sobre a mesa, na frente de todos, e abri o aplicativo.

A tela inicial provocou risadas, mas resume bem o espírito do Girls Around Me: ela mostra um radar sobre uma imagem do Google Maps, do qual se saem numerosas mulheres holográficas posando como “pole dancers” em estado de nudez.

“OK, eis como o aplicativo funciona”, comecei a explicar.

O Girls Around Me é um aplicativo comum de geolocalização baseado em mapas, similar a qualquer outro app que se propõe a alertá-lo de coisas que lhe interessam em sua vizinhança imediata: festas, baladas, promoções e negócios do tipo. Quando você o executa, a primeira coisa que ele faz é descobrir onde você está e abrir um mapa centrado em sua localização. O resto da interface é bem simples: no canto superior esquerdo, há um botão que parece uma tela de radar; no direito, há um medidor de combustível (usado para financiar o modelo “freemium” do aplicativo); no inferior esquerdo, há um botão que lhe permite especificar se você está interessado em mulheres, homens ou ambos.

É quando você aperta o botão de radar que o Girls Around Me faz o que promete. Quando o pressionei, o aplicativo imediatamente entrou no modo de radar, e, após alguns poucos segundos, o mapa da nossa região estava cheio de imagens de garotas que estavam na vizinhança. Como eu mostrava o app em uma noite de sábado, havia dezenas de meninas saindo na nossa região.

Carolina Daffara/Editoria de Arte

“Espere aí… O quê? Essas meninas são prostitutas?”, perguntou um de meus amigos –uma boa pergunta, dadas as poses das silhuetas tipo “Matrix” na tela de abertura.

“Ah, não”, respondi. “São apenas garotas comuns. Vê esta menina? Seu nome é Zoe. Ela mora na mesma rua que eu e Brittany. Trabalha em um café, e tenho certeza de que não faz bico com clientes sexuais.”

“Como o aplicativo sabe onde estas garotas estão? Você as conhece? Ele pega os dados da sua lista de contatos ou algo assim?”, perguntou outro amigo.

“De maneira alguma. São garotas com perfis no Facebook publicamente visíveis que recentemente fizeram check-in nestes locais usando o Foursquare. O Girls Around Me lhe mostra um mapa com todas as meninas da sua área rastreáveis pelo Foursquare. Se houver mais de uma em um mesmo local, você verá em uma bola vermelha o número de garotas ali. Clique nela e você poderá ver imagens de todas as meninas que estão naquele local a qualquer momento. As fotos que vocês estão vendo são imagens dos perfis delas em redes sociais.”

“OK, então elas sabem que seus dados podem ser usados dessa maneira para qualquer um ver? Tudo bem para elas?”

“Provavelmente não, na verdade. As configurações que determinam quão visíveis são suas informações no Facebook e no Foursquare são complicadas e costumam não fazer sentido para pessoas que não entendem direito questões de privacidade”, expliquei. “A maioria das configurações de privacidade em redes sociais tem como padrão compartilhar tudo com todos, e, como a maioria das pessoas nunca as muda… Bem, os dados acabam sugados em aplicativos como este.”

“Mas elas sabem que fizeram o check-in, certo?”

“De novo, não necessariamente.” O Facebook permite que você faça o check-in de outras pessoas em um local. Se você fizer o check-in de uma amiga sem o conhecimento dela e ela tiver um perfil no Facebook publicamente visível, poderá aparecer no aplicativo.

Uma de minhas amigas que têm menos intimidade com computadores ficou pálida e lançou olhares ao seu namorado, em busca de uma comprovação. Ele, um aficionado por Linux e a única pessoa no grupo sem uma conta no Facebook (e uma das poucas que já conheci que realmente endossaram a rede social Diaspora), devolveu um cômico olhar presunçoso.

“Mas esperem! O negócio piora ainda mais!”, exclamei.

“Digamos que eu seja um cara que quer sair à noite na cidade e conhecer alguém. Digamos que eu vá ao Independent, ali na esquina, e, ao conferir o aplicativo com antecedência, goste muito da aparência dessa garota chamada Zoe –parece alguém com quem eu poderia tentar algo nesta noite–, então pressiono sua foto para obter mais informações e ver o que posso encontrar sobre ela aqui.”

Apertei a foto de Zoe. O Girls Around Me rapidamente exibiu em tela cheia a imagem de seu perfil no Facebook. O aplicativo disse-me onde Zoe foi vista pela última vez (The Independent) e quando (15 minutos atrás). Um grande botão verde na parte inferior, com o rótulo “Photos & Messaging” (fotos e mensagens), simplesmente pedia para ser pressionado, e, quando o fiz, fui levado ao perfil de Zoe no Facebook.

“OK, aqui está Zoe. A maioria das suas informações é visível, então agora sei seu nome completo. Posso ver em um relance que ela é solteira, tem 24 anos, estudou na Stoneham High School e no Bunker Hill Community College, gosta de viajar, tem uma visão política liberal e diz que seu livro favorito é ‘Gone with the Wind’ e que sua artista musical favorita é Tori Amos. Posso ver os nomes de seus familiares e amigos. Posso ver seu aniversário.”

“Tudo isso está visível no Facebook”?, perguntou uma das outras garotas no nosso grupo.

“Até mais, dependendo de como as suas opções de privacidade estão configuradas! Por exemplo, posso ver também as fotos de Zoe.”

Selecionei o álbum de fotos, e uma coleção de centenas de imagens publicamente visíveis apareceu. Naveguei rapidamente por elas.

“OK, parece que Zoe é meu tipo de garota. Pelos seus álbuns de fotos, consigo ver que gosta de festas e, dado o número de caras com quem tira fotos em bares e baladas à noite, posso deduzir que ela se solta quando está bêbada. Sua bebida favorita é frosty margarita. Ela parece ter ido recentemente a Roma. Além disso, como seu álbum contém fotos que tirou na praia, agora sei como ela fica de biquíni… E, para dizer a verdade, fica muito bem.”

Minha namorada fez uma careta para mim. Assegurei-lhe que não era uma comparação e segui em frente.

“Então agora sei tudo o que há para saber sobre Zoe. Sei onde ela está. Sei como ela é, tanto vestida quanto quase sem roupa. Sei seu nome completo, o nome completo de seus pais, o nome completo de seu irmão. Sei o que ela gosta de beber. Sei onde ela estudou. Sei do que ela gosta e desgosta. Tudo o que eu preciso fazer agora é ir ao Independent, perguntar-lhe se se lembra de mim na Stoneham High School, perguntar-lhe como vai seu irmão Mike, comprar-lhe uma frosty margarita e começar a discursar eloquentemente sobre aquele lindo verão que passei em Roma.”

Durante esta demonstração, as reações do meu grupo de amigos dividiram-se de acordo com o sexo. Os homens olhavam entretidos ou (no caso do meu amigo barbudo da Diaspora) filosoficamente satisfeitos consigo e suas opiniões sobre redes sociais. As mulheres, por outro lado, pareciam enjoadas e horrorizadas.

Foi nesse momento, porém, que as ramificações do mal-estar das garotas –seu sentimento de profunda empatia por alguém em perigo– aparentemente alcançaram todo o grupo.

“E, se isso não funcionar com Zoe…”, concluí, consultando o aplicativo uma última vez, “há –vamos ver– outras nove garotas no Independent nesta noite”.

Frequentemente um redator carrega nas tintas para transmitir ao leitor o espírito –se não a verdade precisa– do que ocorreu. Quero apenas deixar claro que, quando digo que uma das minhas amigas estava realmente à beira das lágrimas, não estou fazendo isso. Ela estava realmente horrorizada a ponto de chorar.

“Como a Apple pode deixar as pessoas baixarem um aplicativo como este?”, ela perguntou. “E você já escreveu sobre isto?”

Ao responder à primeira questão, disse que, embora parecesse tão sórdido, o Girls Around Me na verdade não fazia nada de errado. Claro, na superfície, parecia um aplicativo de encontros como o Grindr para potenciais “stalkers” e estupradores, mas tudo o que o Girls Around Me realmente fazia era usar APIs públicas do Google Maps, do Facebook e do Foursquare e misturá-las junto. Assim, além de ver as pessoas que fizeram check-in em locais na sua região, você podia aprender mais sobre elas. Ademais, todas as garotas (e homens!) que apareciam no Girls Around Me tinham o poder de deixar essas informações invisíveis a estranhos, mas, seja por ignorância, apatia ou preguiça, nenhuma delas fez isso. Era tudo informação pública. Nada do que o Girls Around Me fazia viola qualquer uma das políticas da Apple.

Na verdade, o Girls Around Me não era nem mesmo o problema real.

“Não é que estejamos horrorizados com o que este aplicativo faz, é?”, perguntei, terminando a minha bebida. “É que estamos horrorizados com quão expostas essas garotas estão e quão expostas serviços como o Facebook e o Foursquare permitem que elas fiquem, sem o conhecimento delas.”

Mas eu não tinha uma resposta fácil para a segunda questão da minha amiga. Havia brincado com o aplicativo por quase dois meses. Por que não escrevera sobre ele? Nenhuma das respostas fazia bem para a minha imagem.

Parte era porque, como muitos profissionais de tecnologia, eu dava como certo que as pessoas sabiam que seus perfis no Facebook e dados no Foursquare ficavam publicamente visíveis se elas não optassem explicitamente pelo contrário… E, como o meu amigo barbudo da Diaspora, eu secretamente achava que as pessoas que estavam expostas dessa maneira na internet sem seu conhecimento eram tolas.

Isso fazia do Girls Around Me uma curiosidade engraçada, uma brincadeirinha chamativa, o tipo de coisa que você mostra aos seus amigos no bar para dar umas risadas… E que, talvez, secretamente deseja que existisse quando era mais jovem e solteiro e tentava se dar bem por aí. O título deste texto poderia muito bem ser: “Sem mais clube do Bolinha com o Girls Around Me [humor]”.

Foi justamente com esse espírito que mostrei o aplicativo para os meus amigos. Estava ficando tarde, estávamos todos bêbados ou quase, havia sido um dia perfeito. Teria sido tão bom terminar tudo com uma risada. Mas agora, com seis amigos inteligentes de diversas origens ao meu redor –alguns parecendo enjoados, alguns parecendo irritados e alguns com medo genuíno em seus rostos–, eu não achava o Girls Around Me tão engraçado. Ele jogou uma cortina de fumaça em um dia lindo e fez pessoas de quem gosto sentirem-se alarmadas… Não apenas por pessoas de quem elas gostam, mas por completos estranhos.

Então escrevo sobre ele agora. Não porque o Girls Around Me seja um aplicativo mau que devia ser retirado da App Store, ou porque a empresa que o faz –a i-Free, de Moscou– esteja cheia de vilões. Ainda não acredito que haja algo de errado no aplicativo, e os caras da i-Free são superlegais e certamente não pretendiam que o app fosse algo além de uma diversão. Assim, a razão pela qual escrevo sobre o Girls Around Me é porque finalmente sei o que dizer sobre ele e o seu significado em um cenário mais amplo.

O Girls Around Me não é um aplicativo que você deve usar para pegar meninas (ou meninos). Ele é um app que você deve baixar para ensinar às pessoas que questões de privacidade são reais, que redes sociais como o Facebook e o Foursquare expõem você e conhecidos seus e que, se você não sabe exatamente o quanto compartilha, está vulnerável como se estivesse nu. Não consigo pensar em nenhuma maneira melhor de fazer alguém entender que é necessário conhecer suas configurações de privacidade no Facebook do que mostrando esse aplicativo.

É por isso que eu espero que você baixe o Girls Around Me no seu iPhone ou iPad. É grátis. Mostre-o para alguém. Faça a mesma demonstração que fiz para meus amigos. Então, quando perguntarem como o aplicativo funciona e como eles podem prevenir o rastramento de aplicativos como o Girls Around Me, eduque-os sobre privacidade.

Tradução de EMERSON KIMURA

*

CONSEQUÊNCIAS

O que aconteceu após a publicação do artigo acima no “Cult of Mac” :

  • A desenvolvedora do Girls Around Me i-Free publicou uma declaração sobre o aplicativo, na qual ela diz que não fez nada de errado e tornou-se um bode expiatório para questões de privacidade.
  • A desenvolvedora do Girls Around Me deu uma entrevista ao “Cult of Mac”, na qual ela diz que o aplicativo não foi feito para perseguir garotas sem o conhecimento delas, mas para evitar mulheres feias.

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PROTEJA-SE

Aprenda a evitar que aplicativos como o Girls Around Me o encontrem.

No Foursquare
A rede social publica seus check-ins por padrão. Para mudar isso, é preciso entrar no site –no aplicativo de celular não dá–, acessar as configurações de privacidade (em Settings) e desmarcar a caixa “Incluir-me na lista pública…”.

No Facebook
Ao fazer atualização de status com local, mude quem pode vê-la no botão abaixo da caixa de texto. Quando um amigo o marca, não dá para evitar que vejam onde você está. Mas, nas configurações de privacidade, em “Linha do tempo e marcação”, você pode optar por analisar qualquer marcação antes de ela ser publicada.

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