COAGIR OU PUNIR


Emprestamos a célebre frase de W. Shakespeare para trazer à baila  assunto há muito questionado por filósofos, professores, psicólogos e  outros, no que se refere a como impedir uma atitude indesejada por parte  de indivíduos, tomando por parâmetro os conceitos de bom convívio  preconizados pela sociedade. Trata-se de evitar que estes indivíduos  desobedeçam a leis, normas, códigos, convenções benéficas e respeitem os  demais membros da sociedade.

O quadro hoje apresentado é que a infração de leis, ordens sociais e  convenções em geral, têm como conseqüência maciça a punição; ou como  forma de coerção ou, meramente, para oferecer exemplos a outros que  tenham o desejo de incorrer no mesmo delito, a fim de diminuir a atitude  indesejada ou anular sua intenção. A coerção, que envolve processos  comportamentais como punição e até mesmo reforçamento negativo, está  muito presente na vida do ser humano, mesmo sem que ele a perceba.

Mas a pergunta que não quer calar: Coagir/punir de forma leve ou  severa, levará ao resultado esperado? O indivíduo aprenderá a “lição”,  modificando o seu comportamento e o seu cotidiano? Evitará que cometa  erros no futuro? As opiniões de estudiosos e profissionais são díspares;  alguns acreditam que a coerção é a melhor forma de resolver todos os  problemas, que deve ser adotada em todas as áreas. Outros, porém, dentre  eles o psicólogo B. F. Skinner, são contra; por terem estudado o  fenômeno e verificado que a punição pode ser apenas uma forma paliativa  de resolver problema, pois os indivíduos podem, de imediato, evitar  emitir o comportamento já punido, o que não significa mudança  permanente. Neste processo é possível que o indivíduo passe a buscar  formas de evitar ser punido, como o desenvolvimento de técnicas para não  ser descoberto e, em conseqüência, não sofrer sanções.

O comportamento punido não é esquecido, é suprimido. Essa supressão,  apenas temporária, geralmente reforça (negativamente) o comportamento do  punidor, pois elimina um comportamento com propriedades aversivas logo  após a intervenção do agente punidor. Em outras palavras, a punição para  o comportamento que se deseja suprimir, é reforçadora para quem a  aplica. Como exemplo, temos a seguinte situação cotidiana: A criança diz  um palavrão, o pai ou a mãe repreendem ou dão uma palmada e a criança  pára, momentaneamente, de falar palavrões. O efeito imediato da punição  pode fazer parecer que a palmada foi um procedimento bem sucedido,  reforçando o comportamento do punidor; porém, o comportamento punido  pode reaparecer em cenários “seguros”, longe dos pais ou outros agentes  punidores. O indivíduo deixa de realizar aquele ato em circunstâncias  semelhantes, ou seja, na presença do punidor e fica à espera de uma  chance para fazer o mesmo numa circunstância na qual a probabilidade de  ocorrência da conseqüência indesejada (a punição) seja diminuída.  Obviamente que o fato depende do que cada indivíduo tem como visão do  que é certo e errado, o que nem sempre impede do comportamento ser  emitido. Para crianças, por exemplo, “matar aula” para ir brincar, não é  um problema. Para a criança, o que importa é que ela vai poder brincar,  apesar de, eventualmente, saber que é errado e que, ao ser descoberta,  provavelmente, será punida. Em suma, as pessoas de qualquer idade podem  ter consciência de que determinada atitude é errada e, ainda assim,  executá-la.

É claro que não se pode estabelecer uma sociedade, uma ordem, com  preservação da integridade e direito dos cidadãos, se não existir uma  forma de controle. O que se coloca em discussão é qual seria a melhor  maneira de controle, e de evitar o descumprimento de tal ordem, de modo a  não solapar os direitos dos cidadãos, tal como comumente ocorre. O que  se observa é que a coerção não muda o indivíduo, apenas o obriga ou o  ensina a discriminar/diferenciar em que situações a ordem pode ser  burlada.

As mudanças ocorridas ao longo das gerações, a modernidade, a  observação do cotidiano e a mídia relatando a todo o momento que muitas  pessoas cometem erros muito graves e que muitos, apesar de não agirem  dentro da lei, conseguem “status”, prestígio e conforto, mostra que tais  indivíduos conseguiram maneiras eficazes de evitar a punição. Indo  além, fornecem exemplo para que muitos busquem encontrar benesses  utilizando a mesma fórmula. Qual a vantagem em viver com o ideal de  honestidade, de respeito ao próximo, agindo de forma ética e correta,  sem pesos e medidas diferenciados para diferentes indivíduos; se tantos  fazem o contrário e obtém benefícios, estando a salvo de qualquer  conseqüência aversiva ou punição? Ao contrário, obtém reforço positivo! O  que pode ser feito para conseguir, eficazmente, mudar este quadro?

É necessário que a ética e o comportamento ético sejam reforçados  positivamente e não o seu contrário! O indivíduo deve ter seu  comportamento valorizado ao ter atitudes corretas, para aumentá-las em  frequência e para respeitar os demais, dentro dos preceitos preconizados  pelo bom senso, pelas leis e pela sociedade. Civilidade, urbanidade e  altruísmo devem passar a obter mais conseqüências positivas do que o  arrivismo, o egocentrismo, as falsas denúncias e as “armações” contra  cidadãos que se insurgem contra uma ordem “às avessas”. Exemplos de  ética que seja bem sucedida (ao invés de punida) terão mais chances de  serem seguidos se obtiverem mais “recompensas” do que os exemplos de sua  ausência, como bem esclarecem ditos populares tais como: “salve-se quem  puder”; “manda quem pode e obedece quem tem juízo”; “em terra de cego  quem tem um olho é rei”; “os fins justificam os meios”; entre outros.

Buscar evidenciar exemplos bem sucedidos de um modo de vida correto e  com realizações, êxito, sucesso, reconhecimento perante a sociedade,  aumenta a chance de outros, que buscam o reconhecimento dos mesmos  valores, emitam comportamentos da mesma classe. Trata-se de mostrar,  voltando a utilizar outra frase popular, que “o crime não compensa”.  Isso pode ocorrer em todos os níveis da sociedade, na vida, no lar, no  trabalho, na escola, no convívio cotidiano com os demais e em qualquer  lugar onde existem pessoas.

No que tange à educação, estes métodos, conhecidos na psicologia  científica como “reforçamento positivo” e “modelação” de comportamento  (comportamento ético, no caso) podem ser um dos princípios a serem  integrados no mundo do professor e demais membros de instituições  educacionais, bem como, em qualquer esfera da sociedade. É necessário  reforçar positivamente o aluno de forma contingente às suas ações. As  crianças, tal como os demais seres humanos,  compreendem com mais  facilidade as instruções claras e as consequências positivas a ações  específicas, do que as nebulosidades, contradições e os métodos  educacionais coercitivos, baseados em reforço negativo e punição. É  muito mais eficaz e agradável trabalhar com o reconhecimento, com o  elogio sincero, parabenizando a atitude correta, alimentando a crença de  que pode ser mais gratificante agir dentro da ética, no que diz  respeito ao ambiente escolar ou em qualquer outro. É necessário deixar  de dar atenção somente ao que é inadequado e dar atenção contingente à  adequação.

Flagre as pessoas fazendo alguma coisa certa, boa, adequada e as elogie  por isso! É muito mais eficaz que apenas dar atenção ao que é  considerado errado por um determinado grupo ou pela sociedade em geral.

Os indivíduos reforçados positivamente tendem a repetir as ações que  foram reforçadas no passado, simples assim! Ter este reconhecimento  “aquece os corações”, pois se ganha em função de algo que se mereceu  ganhar. Isto é o que deveria ser considerado, divulgado e praticado por  aqueles que hoje têm ou que tiveram a oportunidade de ler, discutir,  enfim; ter acesso a esse conhecimento cientificamente validado, a ser  espalhado aos quatro ventos. Uma medida simples como essa contribui para  que a sociedade e as pessoas que dela fazem parte possam ter a chance  de acreditar na possibilidade de mudança e contribuir para um futuro de  homens com atitudes éticas, onde o respeito ao outro e às leis  prevaleça. Isso é possível, apesar de muito estarem convencidos do  contrário.

Mais vale respeitar para ser respeitado, para ver comportamentos  pautados em valores saudáveis, do que conseguir o que ser quer ou  precisa por meio de punição, sabendo que o que se consegue, neste caso, é  medo e não respeito; evitação de conseqüências aversivas e não mudança  de comportamento e de valores.

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